Hérnia após cirurgia de vesícula: sintomas, causas e tratamento
Adriana Michelon • 6 de outubro de 2026
Adriana Michelon
6 de outubro de 2026
Sim, pode aparecer uma hérnia depois da cirurgia de vesícula. Ela surge no ponto de um dos cortes, na maioria das vezes no umbigo, e se chama hérnia incisional. O sinal mais comum é um caroço ou abaulamento na cicatriz. Quando precisa de tratamento, a correção é feita com cirurgia.
A seguir, você entende por que isso acontece, quem tem mais risco, como é feito o diagnóstico e quais sinais pedem atendimento imediato.
O que é hérnia após cirurgia de vesícula?
Hérnia é a saída de parte de um órgão por um ponto fraco da parede da barriga. Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, hérnia abdominal é "o escape (protusão) parcial ou total de um ou mais órgãos por um orifício".
Quando esse ponto fraco é a cicatriz de uma operação, ela recebe o nome de hérnia incisional. A enciclopédia médica MedlinePlus, da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, explica que a hérnia incisional pode surgir através de uma cicatriz em quem já fez cirurgia abdominal.
A cirurgia de vesícula costuma ser feita por videolaparoscopia, a cirurgia por vídeo com pequenos cortes. Em cada corte entra um tubo fino chamado trocarte. Por baixo da pele, esse tubo atravessa a aponeurose, a camada firme que segura a parede da barriga. Se essa camada não cicatriza bem, abre-se uma passagem para a hérnia.
Por que a hérnia aparece mais no umbigo?
Os estudos apontam dois motivos: o tamanho do trocarte e a retirada da vesícula por esse corte. Um relato publicado na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões afirma que o risco de hérnia é "maior no orifício do trocarte umbilical e quando este possui diâmetro de 10 mm ou mais".
Em um estudo espanhol publicado no American Journal of Surgery, a vesícula foi retirada pelo corte do umbigo em todos os pacientes, e todas as hérnias encontradas estavam nesse local.
Nos cortes laterais, a hérnia é rara. O mesmo artigo da revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões cita frequência de 0,23% no orifício do trocarte lateral. Se quiser saber mais sobre onde ficam os cortes, veja o post sobre a cicatriz da cirurgia de vesícula por videolaparoscopia.
É comum ter hérnia depois de tirar a vesícula?
Depende de como se procura. Em uma revisão apresentada em relato de caso do Journal of Clinical and Diagnostic Research, a hérnia no local do trocarte após cirurgia por vídeo aparece entre 0,38% e 5,4% dos casos, com média de 1,7%.
Quando os pacientes são examinados com atenção por mais tempo, o número sobe. No estudo do American Journal of Surgery, 220 pessoas operadas da vesícula foram acompanhadas por uma mediana de 46,8 meses. A hérnia foi encontrada em 25,9% delas. Quase metade dessas hérnias (47,4%) não dava sintoma e só foi achada no exame físico cuidadoso.
Ou seja: muitas hérnias são pequenas e silenciosas. Isso não quer dizer que todas precisem de cirurgia, mas mostra por que vale fazer as consultas de retorno.
Quais são os sintomas de hérnia no corte da vesícula?
Os sinais mais comuns são:
- caroço ou abaulamento na cicatriz, em geral no umbigo;
- volume que aumenta em pé, ao tossir ou ao fazer força, e diminui deitado;
- desconforto ou dor no local, que pode piorar ao levantar peso.
A MedlinePlus descreve que muitas hérnias não dão outro sintoma além do abaulamento visível, e que o incômodo pode piorar em pé, ao fazer força ou ao levantar peso. A BVS do Ministério da Saúde acrescenta que, quando pequenas, as hérnias podem não mostrar outro sinal além do inchaço na área.
O que aumenta o risco de hérnia depois da cirurgia de vesícula?
No estudo do American Journal of Surgery, quatro fatores aumentaram o risco de forma independente:
- diabetes;
- obesidade (índice de massa corporal acima de 30);
- necessidade de ampliar o corte na aponeurose durante a cirurgia;
- infecção da ferida operatória.
O artigo do Journal of Clinical and Diagnostic Research cita também sexo masculino, tipo de trocarte, doenças do tecido conjuntivo e fechamento inadequado da aponeurose. A MedlinePlus lista ainda tosse crônica, esforço intenso e levantar peso como fatores que favorecem hérnias na parede da barriga.
Parte da prevenção acontece na própria cirurgia. O artigo da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões defende o fechamento de rotina da aponeurose no corte do umbigo e nos cortes laterais de 10 mm ou mais. Depois da alta, seguir as orientações de esforço e cuidar bem da ferida também ajuda. Veja o que pode e o que não pode fazer após a cirurgia de vesícula.
Como saber se é hérnia mesmo?
Quem confirma é o cirurgião, no exame físico. Segundo a MedlinePlus, o diagnóstico é feito pelo exame do cirurgião. No estudo do American Journal of Surgery, quando havia dúvida no exame, os médicos pediam um ultrassom de abdome.
Em casos com suspeita de complicação, a tomografia pode ser necessária. No caso descrito na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, o diagnóstico só foi confirmado com tomografia de abdome.
Hérnia após cirurgia de vesícula precisa de cirurgia?
Nem sempre de imediato, mas a cirurgia é o único tratamento que corrige a hérnia. A BVS do Ministério da Saúde afirma que "a cirurgia é o único tratamento que pode corrigir permanentemente uma hérnia abdominal".
Para hérnias pequenas e sem sintomas, a MedlinePlus cita a observação com acompanhamento médico como uma opção. Quando a correção é indicada, o cirurgião fecha a abertura com pontos e, em geral, reforça o local com uma tela. A operação pode ser aberta, por vídeo ou com auxílio de robô.
A escolha depende do tamanho da hérnia, dos sintomas, da saúde geral e do que o cirurgião encontra no exame. A hérnia no umbigo depois da vesícula tem semelhanças com a hérnia umbilical comum; o post cirurgia de hérnia umbilical é simples? explica a correção e seus riscos. Na Bellit, essa avaliação é feita pela equipe de cirurgia do aparelho digestivo.
Quando procurar o pronto-socorro?
Às vezes o conteúdo da hérnia fica preso e não volta para dentro. A BVS do Ministério da Saúde explica que, quando a hérnia fica estrangulada, "há um bloqueio da circulação sanguínea". É uma urgência.
Segundo a MedlinePlus, procure atendimento imediato se:
- a hérnia ficar dolorida e não voltar para dentro quando você se deita e faz uma leve pressão;
- houver náusea, vômito ou febre junto com dor na hérnia;
- a pele sobre a hérnia ficar vermelha, roxa ou escura.
Vômitos, dor em cólica e barriga inchada sem conseguir evacuar também são sinais de alarme. Esses sintomas aparecem nos casos de obstrução intestinal por hérnia descritos na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e no Journal of Clinical and Diagnostic Research.
Perguntas frequentes
A hérnia pode aparecer anos depois da cirurgia de vesícula?
Pode. Há relato de hérnia nos primeiros dias, como no caso do Journal of Clinical and Diagnostic Research, que surgiu dois dias após a operação. No estudo que acompanhou pacientes por quase quatro anos, quase metade das hérnias não dava sintoma e só apareceu no exame de retorno.
Toda bolinha no umbigo depois da cirurgia é hérnia?
Não dá para saber só olhando. Quem confirma é o cirurgião no exame físico, às vezes com apoio de ultrassom.
Hérnia pequena e sem dor pode esperar?
Em alguns casos, sim, com acompanhamento médico. A decisão é individual e precisa considerar o risco de a hérnia crescer ou ficar presa.
A correção da hérnia usa tela?
Em geral, sim. O cirurgião fecha a abertura com pontos e costuma reforçar o local com uma tela.
Quem tem diabetes ou obesidade tem mais risco?
Sim. No estudo do American Journal of Surgery, diabetes e obesidade foram fatores de risco independentes para hérnia no corte do umbigo.
A hérnia pode ser corrigida por vídeo ou por robô?
Sim. Além da cirurgia aberta, a correção pode ser feita por vídeo ou com auxílio de robô, conforme a avaliação do cirurgião.
Sentiu um caroço na cicatriz da vesícula?
Um abaulamento no umbigo depois da cirurgia de vesícula merece avaliação, mesmo sem dor. O exame confirma se é hérnia e ajuda a decidir entre acompanhar ou operar. Se quiser conversar com a equipe, agende uma avaliação na Clínica Bellit.
Referências
- Comajuncosas J, Hermoso J, Gris P, Jimeno J, Orbeal R, Vallverdú H, et al. Risk factors for trocar site incisional hernia in laparoscopic cholecystectomy: a prospective 3-year follow-up study. American Journal of Surgery, v. 207, n. 1, p. 1-6, 2014. https://ddd.uab.cat/pub/artpub/2014/325238/AmJSur_a2014v207n1.pdf. Acesso em 06/10/2026.
- Carvalho GL, Nunes Filho ACB, Brasil Junior GC. Hérnia encarcerada em orifício de trocarte lateral diagnosticada por tomografia computadorizada. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 32, n. 3, 2005. https://scielo.br/pdf/rcbc/v32n3/v32n3a13.pdf. Acesso em 06/10/2026.
- Sharma R, Mehta D, Goyal M, Gupta S. The earliest presenting umbilical port site hernia following laparoscopic cholecystectomy: a case report. Journal of Clinical and Diagnostic Research, 2016. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5020163. Acesso em 06/10/2026.
- Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. Hérnia abdominal. 2019. https://bvsms.saude.gov.br/hernia/. Acesso em 06/10/2026.
- MedlinePlus, U.S. National Library of Medicine. Hernia. Revisado em 2024. https://medlineplus.gov/ency/article/000960.htm. Acesso em 06/10/2026.
- MedlinePlus, U.S. National Library of Medicine. Ventral hernia repair. Revisado em 2025. https://medlineplus.gov/ency/article/007661.htm. Acesso em 06/10/2026.
Conteúdo informativo, não substitui consulta médica. Revisão médica: Dr. Danilo Bugalho Galdiano — CRM-SP 152058 — RQE 89659 / 896591.



