Qual anestesia para cirurgia de hérnia? Local, raqui ou geral
Adriana Michelon • 29 de setembro de 2026
Adriana Michelon
29 de setembro de 2026
A cirurgia de hérnia inguinal ou umbilical pode ser feita com anestesia local e sedação, com um bloqueio regional (como a raquianestesia) ou com anestesia geral. A escolha depende da técnica cirúrgica, do tamanho e do tipo da hérnia e da sua saúde. Quem decide é a equipe, com o anestesista, depois de uma consulta antes da cirurgia.
Quais são os tipos de anestesia usados na cirurgia de hérnia?
São três caminhos principais. Segundo a Sociedade Brasileira de Hérnia (SBH), as cirurgias de hérnia da parede abdominal podem ser feitas com anestesia local e sedação ou com bloqueios anestésicos loco-regionais. Em alguns casos, a anestesia geral é necessária.
- Anestesia local com sedação: o anestésico é aplicado na região da hérnia, e um remédio na veia deixa você relaxado e sonolento. A pessoa respira sozinha.
- Bloqueio regional: o anestésico adormece uma parte maior do corpo. A raquianestesia, feita nas costas, é o exemplo mais conhecido.
- Anestesia geral: você fica inconsciente durante toda a cirurgia, com a respiração apoiada por aparelhos.
Um artigo publicado no Paraná Research Medical Journal resume o mesmo ponto: a cirurgia de hérnia inguinal pode ser feita com anestesia geral, local ou regional.
Qual anestesia é usada na cirurgia de hérnia inguinal?
Depende sobretudo de como a hérnia será operada.
Na cirurgia aberta , com um corte na virilha, a anestesia local é uma opção bem estabelecida. A diretriz internacional para o tratamento da hérnia inguinal (HerniaSurge, 2018) recomenda a anestesia local na cirurgia aberta, desde que o cirurgião tenha experiência com essa técnica. A mesma diretriz recomenda que, em toda cirurgia aberta, o cirurgião aplique anestésico na região operada (bloqueio de campo ou infiltração), qualquer que seja a anestesia principal. Isso ajuda no controle da dor.
No Brasil, um estudo publicado na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões descreveu cirurgias de hérnia inguinal sem complicação feitas com anestesia local em ambulatório, com bloqueio de campo, sedação e monitorização contínua do paciente.
Na cirurgia por vídeo ( videolaparoscopia) ou com robô, o cenário muda. O abdome é inflado com gás para o cirurgião enxergar e trabalhar. Por isso, a via laparoscópica tradicionalmente exige anestesia geral. Um artigo do Journal of the Society of Laparoendoscopic Surgeons registra que a cirurgia aberta pode ser feita com anestesia local, e a laparoscópica, não. O mesmo artigo relata casos operados por vídeo com anestesia local, mas isso é exceção: a regra continua sendo a anestesia geral.
Para entender as diferenças entre essas técnicas, veja o post sobre os tipos de cirurgia de hérnia inguinal: aberta, por vídeo e com tela.
Qual anestesia é usada na cirurgia de hérnia umbilical?
A lógica é a mesma. A SBH trata das hérnias da parede abdominal, grupo do qual a hérnia umbilical faz parte, e explica que elas podem ser operadas com anestesia local e sedação ou com bloqueio regional, e lembra que às vezes a anestesia geral é necessária.
Na prática, o que pesa é:
- o tamanho da hérnia e se ela já foi operada antes;
- se a correção será aberta ou por vídeo;
- se haverá colocação de tela;
- as suas condições de saúde.
Por isso, duas pessoas com hérnia umbilical podem receber anestesias diferentes. Mais detalhes sobre a cirurgia estão em cirurgia de hérnia umbilical é simples? Como é feita, riscos e recuperação.
Quem decide qual anestesia vou tomar?
A decisão é da equipe, junto com você. A SBH explica que a avaliação é feita em conjunto pela equipe cirúrgica, que o paciente passa por uma consulta com o anestesista antes da operação e que a indicação pode mudar conforme as particularidades de cada pessoa.
Essa consulta tem respaldo em norma. A Resolução CFM nº 2.174/2017, do Conselho Federal de Medicina, recomenda que, em cirurgias eletivas (marcadas com antecedência), a consulta pré-anestésica seja feita em consultório. Nela o anestesista pode pedir exames ou a avaliação de outro especialista.
Leve para essa consulta:
- a lista dos remédios que você usa, inclusive os naturais;
- exames recentes;
- informações sobre alergias e sobre anestesias anteriores, inclusive se houve enjoo ou outra reação.
Siga à risca as orientações de jejum que a equipe passar. Elas variam conforme o tipo de anestesia e o seu caso.
A anestesia local é mais segura que a geral?
Não existe uma anestesia "mais segura" para todo mundo. Cada uma tem vantagens e limites, e a melhor é a que combina com a técnica e com a sua saúde.
Um ponto bem estudado é a retenção urinária , a dificuldade de urinar depois da cirurgia. Uma revisão publicada na Regional Anesthesia and Pain Medicine, com dados de milhares de pacientes operados de hérnia inguinal, encontrou retenção urinária em 0,37% dos casos com anestesia local, 2,42% com anestesia regional e 3,00% com anestesia geral. Os próprios autores lembram que técnicas mais novas de anestesia geral e regional precisam de mais dados.
O artigo do Paraná Research Medical Journal aponta que as anestesias geral e raquidiana podem causar alterações de pressão e de batimentos durante o procedimento, e cita a anestesia local como a escolha preferida para a hérnia inguinal do adulto.
Ao mesmo tempo, a anestesia local não serve para todos os casos, como mostra a seção abaixo. E a diretriz HerniaSurge sugere preferir a anestesia geral à regional em pessoas com 65 anos ou mais.
Quando a anestesia local não é indicada?
A anestesia local pode não ser a melhor opção quando:
- a cirurgia será por vídeo ou com robô. O gás usado para inflar o abdome faz a anestesia geral ser a regra, como registra o artigo do Journal of the Society of Laparoendoscopic Surgeons;
- o cirurgião não tem experiência com a técnica local. A diretriz HerniaSurge só recomenda a anestesia local na cirurgia aberta quando o cirurgião é experiente nela;
- as suas condições de saúde pedem outra abordagem. A SBH lembra que a indicação muda conforme as particularidades de cada paciente.
Também pode acontecer de a anestesia planejada mudar durante a cirurgia, se a situação pedir. Por isso o anestesista acompanha você do início ao fim. A Resolução CFM nº 2.174/2017 determina que, em anestesias gerais ou regionais, o anestesista permaneça dentro da sala, em vigilância permanente, até o fim do procedimento. Para a sedação, a mesma resolução recomenda que ela seja feita por médicos, de preferência anestesistas.
Quando procurar atendimento depois da cirurgia?
Avise a equipe ou procure o pronto-socorro se tiver:
- dificuldade ou impossibilidade de urinar nas horas após a cirurgia;
- falta de ar, dor no peito ou desmaio;
- febre, vermelhidão ou secreção no corte;
- inchaço que cresce rápido na região operada;
- vômitos que não param ou dor que não melhora com os remédios receitados.
Para entender os riscos da cirurgia como um todo, e não só da anestesia, leia cirurgia de hérnia inguinal é perigosa? Riscos de operar e de esperar.
Perguntas frequentes
Vou ficar acordado na cirurgia de hérnia com anestesia local?
Em geral, a anestesia local vem com sedação. Você fica relaxado e sonolento e pode cochilar. O grau de sedação é ajustado pelo anestesista.
Preciso ser intubado na cirurgia de hérnia?
Só se a anestesia for geral, o que é a regra na cirurgia por vídeo ou com robô. Na anestesia local com sedação ou no bloqueio regional, você respira sozinho.
Posso escolher o tipo de anestesia?
Você pode e deve conversar sobre suas preferências na consulta pré-anestésica. A decisão final leva em conta a técnica cirúrgica e a sua segurança.
A anestesia para hérnia é arriscada?
A SBH afirma que as anestesias atuais são muito seguras. Ainda assim, nenhuma é isenta de riscos, e a consulta com o anestesista serve para avaliar os riscos no seu caso.
Quanto tempo depois da anestesia posso ir para casa?
Um resumo da diretriz HerniaSurge publicado nos Annals of Laparoscopic and Endoscopic Surgery recomenda a cirurgia em regime de hospital-dia (alta no mesmo dia) para a maioria dos pacientes com hérnia inguinal. Isso depende da anestesia, da técnica e de como você se recupera. A equipe só libera quando você está estável.
Quem tem doença do coração pode operar a hérnia?
Muitas vezes, sim, mas a avaliação é mais cuidadosa. É para isso que serve a consulta pré-anestésica: definir a anestesia mais adequada e, se preciso, pedir a avaliação de outro especialista.
Como a Bellit conduz essa decisão
Na Clínica Bellit, a escolha da anestesia faz parte do planejamento da cirurgia, junto com a técnica e o tipo de reparo. Conheça a cirurgia do aparelho digestivo na Bellit e, se tiver diagnóstico de hérnia, agende uma avaliação com a equipe para tirar suas dúvidas antes de operar.
Referências
- Sociedade Brasileira de Hérnia (SBH). A anestesia na cirurgia de hérnia. 2020. https://sbhernia.org.br/a-anestesia-na-cirurgia-de-hernia/. Acesso em 19/10/2026.
- HerniaSurge Group. International guidelines for groin hernia management. Hernia, 22(1):1-165, 2018. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5809582. Acesso em 19/10/2026.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.174, de 14 de dezembro de 2017 (dispõe sobre a prática do ato anestésico). 2017. https://www.fcm.unicamp.br/fcm/sites/default/files/2018/page/resolucao-cfm_no_2.174_de_14_de_dezembro_de_2017.pdf. Acesso em 19/10/2026.
- Postherniorrhaphy urinary retention: effect of local, regional, and general anesthesia: a review. Regional Anesthesia and Pain Medicine, 27(6):612-617, 2002. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12430114. Acesso em 19/10/2026.
- Frezza EE, Ferzli G. Local and general anesthesia in the laparoscopic preperitoneal hernia repair. JSLS, 4(3):221-224, 2000. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3113173. Acesso em 19/10/2026.
- Laurino Neto RM, Buchmann AACM, Messias LRR. Tratamento cirúrgico das hérnias inguinais sob anestesia local em ambulatório. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 31(2):102-106, 2004. https://pesquisa.bvsalud.org/gim/resource/ar/lil-466671. Acesso em 19/10/2026.
- Tumtavitikul S. Highlights from the International Guidelines for Groin Hernia Management. Annals of Laparoscopic and Endoscopic Surgery, 2:161, 2017. https://ales.amegroups.org/article/view/4219/html. Acesso em 19/10/2026.
- Carvalho RDG, Santos Filho PAB, Miranda EF, Leal PV. Estudo comparativo da dor pós-operatória após infiltração local de bupivacaína em aponeurose para correção de hérnia inguinal. Paraná Research Medical Journal, 3(2):e10, 2019. https://prmjournal.emnuvens.com.br/revista/article/download/75/74/65. Acesso em 19/10/2026.
Conteúdo informativo, não substitui consulta médica. Revisão médica: Dr. Danilo Bugalho Galdiano — CRM-SP 152058 — RQE 89659 / 896591.



