Videolaparoscopia é perigosa? Riscos reais e como são reduzidos
Adriana Michelon • 15 de outubro de 2026
Adriana Michelon
15 de outubro de 2026
A videolaparoscopia não é considerada uma cirurgia perigosa, mas também não é isenta de riscos. As complicações são pouco frequentes e, em geral, as mesmas de qualquer operação: sangramento, infecção, hérnia no corte e trombose. Lesões de órgãos internos são raras. O risco de cada pessoa depende da doença, da saúde geral e da avaliação do cirurgião.
A seguir, explicamos quais são os riscos reais, por que às vezes é preciso mudar para a cirurgia aberta e o que é feito para deixar o procedimento mais seguro.
Videolaparoscopia é perigosa?
Para a maioria das pessoas, não. A videolaparoscopia é a técnica em que o cirurgião opera por pequenos cortes, com uma câmera e pinças finas, em vez de abrir a barriga. Se quiser entender o passo a passo, veja o que é videolaparoscopia e como ela é feita.
Na retirada da vesícula, que é uma das cirurgias por vídeo mais comuns, as complicações "não acontecem com frequência", segundo a Sociedade Americana de Cirurgiões Gastrointestinais e Endoscópicos (SAGES). Isso não significa risco zero. Significa que, quando bem indicada, a cirurgia costuma transcorrer sem intercorrências.
Um grande estudo brasileiro ajuda a dar dimensão. Pesquisadores analisaram mais de 1,4 milhão de cirurgias de vesícula feitas no SUS entre 2013 e 2019. Nas cirurgias programadas, a mortalidade foi de 0,06% na videolaparoscopia e de 0,11% na cirurgia aberta, conforme a Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Os próprios autores alertam que a vantagem da técnica por vídeo pode estar superestimada, porque os dados não traziam informações como outras doenças dos pacientes.
Quais são os riscos da videolaparoscopia?
Os riscos se dividem em dois grupos: os comuns a qualquer cirurgia e os ligados à técnica por vídeo.
Riscos de qualquer cirurgia
As complicações mais frequentes de qualquer operação são sangramento e infecção, de acordo com o material da SAGES sobre laparoscopia. Na cirurgia de vesícula por vídeo, a mesma sociedade cita também:
- sangramento;
- infecção no local da cirurgia;
- hérnia em um dos cortes;
- coágulos no sangue (trombose);
- problemas no coração.
Riscos ligados à técnica por vídeo
Há um pequeno risco de lesão de órgãos do abdome, como intestino, bexiga ou vasos sanguíneos, segundo a SAGES. Na cirurgia de vesícula, a estrutura que mais preocupa é o canal da bile (via biliar).
Uma revisão sobre a entrada na cavidade abdominal mostra que essas lesões são raras. Em dados de seguros da Finlândia, houve 0,6 lesão de intestino e 0,1 lesão de vaso a cada 1.000 procedimentos, segundo Krishnakumar e Tambe, no Journal of Gynecological Endoscopy and Surgery. A mesma revisão aponta que pelo menos metade das complicações graves acontece no momento da entrada, antes de a cirurgia em si começar.
No caso da vesícula, o estudo brasileiro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões cita estimativas de lesão da via biliar de até 1,5% na técnica por vídeo e de 0,2% na cirurgia aberta, conforme Olijnyk e colaboradores. É um risco baixo, mas real, e por isso faz parte da conversa antes da cirurgia.
E o gás usado na cirurgia?
Para criar espaço e enxergar os órgãos, o cirurgião enche a barriga com gás, como o gás carbônico. Depois da cirurgia, a pessoa pode sentir a barriga estufada. Há "muito pouco risco" de efeitos ruins do gás, que é retirado ao fim da operação, segundo a SAGES. Uma complicação grave ligada ao gás, a embolia, foi registrada em 0,001% de quase 490 mil laparoscopias, conforme a revisão de Krishnakumar e Tambe.
Se surgir desconforto no ombro ou nas costas nos primeiros dias, veja o que costuma ser esperado no post sobre dor após cirurgia de vesícula.
A videolaparoscopia é mais perigosa que a cirurgia aberta?
Em geral, não. A cirurgia por vídeo costuma causar menos dor e permitir uma recuperação mais rápida do que a aberta, segundo a SAGES. No estudo brasileiro com dados do SUS, a mortalidade foi menor na técnica por vídeo tanto nas cirurgias programadas quanto nas de urgência.
Mas cada técnica tem seu lugar. Em alguns casos, a cirurgia aberta é a escolha mais segura desde o início. Comparamos as duas em laparotomia ou laparoscopia: qual a diferença.
Quando pode ser preciso mudar para a cirurgia aberta?
Às vezes, a cirurgia começa por vídeo e termina aberta. Isso se chama conversão. Mudar para a cirurgia aberta "não é uma complicação", e sim uma decisão tomada quando ela é a opção mais segura para o paciente, segundo a SAGES.
Na cirurgia de vesícula, a conversão é estimada entre 4,2% e 6,2% dos casos, conforme estimativa citada no estudo da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. A SAGES lista situações que tornam essa mudança mais provável:
- vesícula muito inflamada ou com cicatrizes;
- aderências (cicatrizes internas) de cirurgias anteriores no abdome;
- obesidade;
- visão ruim dos órgãos pela câmera;
- sangramento durante a cirurgia.
Quando a videolaparoscopia não é indicada?
Algumas pessoas não podem fazer a cirurgia por vídeo. Na retirada da vesícula, ela pode não ser uma opção em quem tem doença grave da vesícula ou já operou a parte de cima do abdome, segundo a SAGES.
A decisão é individual. Ela leva em conta a doença a ser tratada, cirurgias anteriores, o peso, o coração, o pulmão e outros problemas de saúde. Por isso, a consulta antes da cirurgia é o momento de perguntar ao cirurgião qual técnica ele indica e por quê.
Como os riscos da videolaparoscopia são reduzidos?
Parte da segurança vem da indicação certa. Outra parte vem de cuidados durante a cirurgia. Alguns exemplos:
- Atenção redobrada na entrada. Como boa parte das lesões graves acontece ao introduzir os primeiros instrumentos, essa etapa recebe técnica e cuidado específicos.
- Pressão do gás controlada. A revisão de Krishnakumar e Tambe recomenda reduzir a pressão do gás para 12 a 14 mmHg depois que os instrumentos estão posicionados.
- Disposição para converter. Se a visão não está boa ou a anatomia é difícil, mudar para a cirurgia aberta é uma medida de segurança.
- Avaliação antes da cirurgia. Exames e consulta ajudam a identificar fatores que aumentam o risco de cada pessoa.
Em alguns casos, a cirurgia minimamente invasiva também pode ser feita com auxílio da cirurgia robótica, que é uma evolução da videolaparoscopia. A escolha depende do caso e da avaliação médica.
Quando procurar o pronto-socorro após a videolaparoscopia?
Procure seu cirurgião ou um pronto-socorro se tiver, conforme a orientação da SAGES:
- febre acima de 38,5 °C;
- dor forte ou inchaço na barriga;
- pele ou olhos amarelados;
- náusea ou vômito que impedem comer ou beber;
- sangue ou pus saindo dos cortes, ou vermelhidão que se espalha;
- dor que não melhora com os remédios receitados;
- falta de ar ou tosse que não passa.
Perguntas frequentes
Videolaparoscopia é uma cirurgia grande?
Depende do que está sendo operado. A técnica usa cortes pequenos, mas por dentro a cirurgia pode ser simples ou complexa. O tamanho do corte não define a complexidade da operação.
Qual o risco de morrer na videolaparoscopia?
É baixo. Em cirurgias programadas de vesícula no SUS, a mortalidade foi de 0,06% por vídeo, segundo o estudo da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. O risco varia com a doença e a saúde de cada pessoa.
Converter para cirurgia aberta é um erro médico?
Não. A conversão é uma decisão de segurança, tomada quando continuar por vídeo traria mais risco.
Quem já fez outras cirurgias na barriga pode fazer videolaparoscopia?
Muitas vezes, sim. Mas aderências de cirurgias anteriores podem dificultar a técnica e aumentar a chance de conversão. O cirurgião avalia caso a caso.
A cirurgia de hérnia inguinal por vídeo é perigosa?
Ela tem riscos próprios, que tratamos em cirurgia de hérnia inguinal é perigosa.
O gás da cirurgia faz mal?
Em geral, não. Ele pode deixar a barriga estufada e causar desconforto por alguns dias. Complicações graves ligadas ao gás são muito raras.
Se você tem indicação de cirurgia e quer entender os riscos no seu caso, agende uma avaliação com a equipe da Bellit.
Referências
- Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons (SAGES). Patient Information for Laparoscopic Gallbladder Removal (Cholecystectomy). Revisado em 2026. Disponível em: sages.org. Acesso em 14/10/2026.
- Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons (SAGES). Patient Information for Diagnostic Laparoscopy. Revisado em 2026. Disponível em: sages.org. Acesso em 14/10/2026.
- Olijnyk JG, Valandro IG, Rodrigues M, Czepielewski MA, Cavazzola LT. Cholecystectomies in the Brazilian public system: is access to laparoscopy universal after three decades? Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 49, 2022. Disponível em: scielo.br. Acesso em 14/10/2026.
- Krishnakumar S, Tambe P. Entry Complications in Laparoscopic Surgery. Journal of Gynecological Endoscopy and Surgery, v. 1, n. 1, p. 4–11, 2009. Disponível em: PubMed Central. Acesso em 14/10/2026.
Conteúdo informativo, não substitui consulta médica. Revisão médica: Dr. Danilo Bugalho Galdiano — CRM-SP 152058 — RQE 89659 / 896591.



