Cirurgia com robô: quais cirurgias do aparelho digestivo podem ser feitas
Adriana Michelon • 14 de outubro de 2026
Adriana Michelon
14 de outubro de 2026
Várias cirurgias do aparelho digestivo podem ser feitas com robô: retirada da vesícula, correção de hérnia inguinal, hérnia de hiato e refluxo, cirurgias do intestino e do reto e a cirurgia bariátrica. O robô não opera sozinho: o cirurgião comanda cada movimento. Ser possível não quer dizer que seja sempre a melhor opção. A indicação depende do caso, da equipe e do hospital.
O que é uma cirurgia com robô?
É uma forma de cirurgia minimamente invasiva. Em vez de um corte grande, o cirurgião trabalha por pequenas incisões, com uma câmera e pinças longas. A diferença para a videolaparoscopia comum é que as pinças ficam presas a braços robóticos, controlados pelo cirurgião a partir de um console.
No Brasil, a Resolução CFM nº 2.311/2022 define a cirurgia robótica como uma "modalidade de tratamento cirúrgico a ser utilizada por via minimamente invasiva". Ou seja, é uma técnica a serviço da cirurgia, e não uma cirurgia nova.
Se você quer entender o funcionamento em detalhes, veja como a cirurgia robótica é feita na Bellit.
O robô faz a cirurgia sozinho?
Não. Segundo o documento de consenso da SAGES, sociedade americana de cirurgia gastrointestinal e endoscópica, os robôs cirúrgicos atuais "são continuamente controlados pelo cirurgião e não se movem de forma autônoma".
A regra brasileira também prevê presença humana ao lado do paciente. Conforme o Conselho Federal de Medicina, a cirurgia robótica é feita por, no mínimo, dois cirurgiões: um no console e outro junto ao paciente, capaz de assumir a cirurgia em uma emergência.
Quais cirurgias do aparelho digestivo podem ser feitas com robô?
A lista abaixo traz os procedimentos digestivos em que há estudos publicados com a técnica robótica. Cada um tem indicações próprias, que o cirurgião avalia na consulta.
Retirada da vesícula (colecistectomia)
A vesícula pode ser retirada com robô. Um estudo publicado no JAMA Surgery em 2025, com pacientes operados em situação de urgência, encontrou taxas parecidas de lesão da via biliar entre robô e videolaparoscopia. Mas a via robótica teve mais complicações graves no pós-operatório, internações mais longas e mais uso de dreno. Os autores concluem que o robô pode não trazer benefício claro em relação à técnica padrão nesses casos.
Hérnia inguinal
A correção da hérnia inguinal também pode ser feita com robô. Um estudo randomizado conhecido como RIVAL comparou robô e videolaparoscopia. Segundo análise publicada na revista Laparoscopic Surgery, o estudo confirmou cirurgia mais demorada e custo maior com o robô, e a vantagem de menos dor relatada antes não se repetiu. Para entender as opções, veja os tratamentos de cirurgia do aparelho digestivo.
Hérnia de hiato, refluxo e acalasia
Na parte alta do sistema digestivo, o robô é usado na correção da hérnia de hiato, uma das causas do refluxo. Uma série brasileira publicada nos Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva reuniu cirurgias robóticas feitas "em sua maioria para correção de hérnia de hiato ou cirurgia bariátrica". O consenso da SAGES cita a miotomia de Heller, cirurgia para a acalasia (dificuldade do esôfago em relaxar), e a correção da hérnia paraesofágica como procedimentos em que o robô pode ter valor particular.
Intestino e reto
Cirurgias do intestino grosso e do reto, inclusive para câncer de reto, podem ser feitas com robô. O estudo randomizado ROLARR, publicado no JAMA em 2017, comparou as duas técnicas na retirada do reto por câncer. A conversão para cirurgia aberta foi de 8,1% no grupo do robô e 12,2% no grupo da videolaparoscopia, diferença que não foi estatisticamente significativa. Quando o problema envolve intestino ou reto, a avaliação pode incluir a equipe de coloproctologia.
Cirurgia bariátrica
O bypass gástrico e a gastrectomia vertical (sleeve) também podem ser feitos com robô. Uma série de casos publicada na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões concluiu que a bariátrica robótica é segura, com resultados comparáveis aos da videolaparoscopia, e registrou tempo de sala cirúrgica maior com o robô. Os próprios autores pedem estudos maiores e randomizados.
A cirurgia com robô é melhor que a videolaparoscopia?
Nem sempre. Os estudos citados acima mostram um padrão: em vários procedimentos digestivos, o robô tem resultados parecidos com os da videolaparoscopia, e muitas vezes com mais tempo de cirurgia e custo maior.
Isso não diminui a técnica. Os autores da série brasileira dos Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva a consideraram segura, com menor sangramento e tempo cirúrgico aceitável. Mas a escolha entre robô e vídeo deve ser feita caso a caso. Comparamos as duas técnicas, ponto a ponto, no texto sobre cirurgia robótica ou videolaparoscopia.
O que o CFM exige para fazer cirurgia com robô?
A Resolução CFM nº 2.311/2022 estabelece regras para proteger o paciente:
- Hospital preparado: a cirurgia deve ser feita em hospital que atenda às normas de alta complexidade.
- Cirurgião especialista: segundo o CFM, só pode operar o médico com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) e treinamento específico em cirurgia robótica.
- Dois cirurgiões: um no console e outro ao lado do paciente.
- Consentimento por escrito: o paciente deve ser informado dos riscos e benefícios, e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido é obrigatório.
Vale perguntar na consulta sobre a experiência da equipe e o hospital onde a cirurgia será feita.
Quando a cirurgia com robô pode não ser indicada?
O robô é uma ferramenta, e há situações em que ele não é a melhor escolha:
- Quando não traz ganho para aquele caso. Na hérnia inguinal, por exemplo, o robô aumentou o tempo de cirurgia e o custo sem mostrar vantagem clínica clara.
- Em algumas urgências. No estudo do JAMA Surgery com vesícula inflamada operada em urgência, o robô teve mais complicações graves.
- Quando o hospital ou a equipe não cumprem as exigências do CFM.
- Quando a avaliação clínica contraindica a cirurgia minimamente invasiva para aquele paciente.
Pode ser preciso mudar a técnica durante a cirurgia?
Sim. Como em toda cirurgia minimamente invasiva, pode ser necessário converter para cirurgia aberta, se a segurança exigir. No estudo ROLARR, isso aconteceu em parte dos pacientes dos dois grupos. O consenso da SAGES destaca que o cirurgião precisa ser capaz de passar imediatamente para outra técnica quando a situação pedir. Converter não é falha: é uma decisão para proteger o paciente.
O plano de saúde cobre cirurgia com robô?
Depende do procedimento, do contrato e das regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar. Explicamos como funciona a cobertura e como pedir autorização no texto sobre se o plano de saúde cobre cirurgia robótica.
Perguntas frequentes
A cicatriz da cirurgia com robô é menor?
É feita por pequenas incisões, como a videolaparoscopia. O número e o local dos cortes dependem do procedimento.
A cirurgia com robô dói menos?
Não há garantia. Na hérnia inguinal, o estudo RIVAL não confirmou menos dor com o robô em comparação com a videolaparoscopia.
A cirurgia com robô demora mais?
Em vários estudos, sim. Na hérnia inguinal e na bariátrica, o tempo de cirurgia ou de sala foi maior com o robô.
Quem opera é o robô ou o médico?
O médico. O robô não se move sozinho e há sempre um segundo cirurgião ao lado do paciente.
Toda cirurgia digestiva pode ser feita com robô?
Não. A indicação depende do problema, da saúde do paciente e da estrutura disponível.
Como saber se o robô é indicado no meu caso?
Só uma consulta com cirurgião do aparelho digestivo pode avaliar. Leve seus exames e suas dúvidas.
Se você tem indicação de cirurgia digestiva e quer saber se a técnica robótica faz sentido para você, agende uma avaliação com a equipe da Bellit.
Referências
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.311/2022 — Regulamenta a cirurgia robótica no Brasil. 2022. https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2022/2311_2022.pdf. Acesso em 21/10/2026.
- Conselho Federal de Medicina. CFM regulamenta a cirurgia robótica no Brasil. 2022. https://portal.cfm.org.br/noticias/cfm-regulamenta-a-cirurgia-robotica-no-brasil. Acesso em 21/10/2026.
- SAGES-MIRA Robotic Surgery Consensus Group (Herron DM, Marohn M). A consensus document on robotic surgery. SAGES, 2007. https://www.sages.org/publications/guidelines/consensus-document-robotic-surgery/. Acesso em 21/10/2026.
- Woldehana NA, Jung A, Parker BC, Coker AM, Haut ER, Adrales GL. Clinical Outcomes of Laparoscopic vs Robotic-Assisted Cholecystectomy in Acute Care Surgery. JAMA Surgery, 2025;160(7):755-762. https://jamanetwork.com/journals/jamasurgery/fullarticle/2834477. Acesso em 21/10/2026.
- Gunnarsson U, Dahlstrand U, Strigård K. Is robotic-assisted surgery a step in the right direction for routine inguinal hernia repair? Laparoscopic Surgery, 2022;6. https://ls.amegroups.org/article/view/6521/html. Acesso em 21/10/2026.
- Abdalla RZ, Averbach M, Ribeiro-Junior U, Machado MAC, de Luca-Filho CRP. Robotic abdominal surgery: a brazilian initial experience. ABCD — Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva, 2013. https://scielo.br/j/abcd/a/Sv5mghRzLv4Dq8q9jddSrSB/?lang=en. Acesso em 21/10/2026.
- Jayne D, Pigazzi A, Marshall H, et al. Effect of Robotic-Assisted vs Conventional Laparoscopic Surgery on Risk of Conversion to Open Laparotomy Among Patients Undergoing Resection for Rectal Cancer: The ROLARR Randomized Clinical Trial. JAMA, 2017;318(16):1569-1580. https://eprints.whiterose.ac.uk/123390. Acesso em 21/10/2026.
- Elias AA, Roque-de-Oliveira M, Campos JM, et al. Cirurgia bariátrica robótico-assistida: análise de série de casos e comparação com via laparoscópica. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2018;45(3). https://scielo.br/j/rcbc/a/9gNbgzNwS3QGmBWCJ3484Pb/?lang=en. Acesso em 21/10/2026.
Conteúdo informativo, não substitui consulta médica. Revisão médica: Dr. Danilo Bugalho Galdiano — CRM-SP 152058 — RQE 89659 / 896591.



